Há uma palavra que a esquerda ocidental nunca aprendeu a pronunciar com honestidade: derrota. Nos últimos quatro anos, o progressismo sofreu uma série de reveses eleitorais que qualquer analista honesto reconheceria como um padrão, não como acidentes. Nos Estados Unidos, Donald Trump regressou à Casa Branca com uma coligação que cresceu em praticamente todos os grupos demográficos, incluindo os que a narrativa dominante insistia serem imunes ao apelo conservador. Em Portugal, o Chega passou de curiosidade eleitoral a terceira força do Parlamento. Em Itália, Giorgia Meloni governa com maioria. Em França, Marine Le Pen lidera todas as sondagens para 2027. O padrão é demasiado coerente para ser ignorado.

O que aconteceu nos Estados Unidos

A vitória de Trump em novembro de 2024 não foi o triunfo de um homem. Foi o triunfo de uma ideia: a de que o Estado existe para servir os cidadãos que o financiam, não para os reeducar. A administração Biden-Harris representou o auge de uma visão de governo que confundiu a burocracia federal com a vanguarda moral da sociedade. O resultado foi uma inflação que destruiu o poder de compra das famílias de classe média, uma política de fronteiras que transformou a imigração ilegal num direito administrativo e uma agenda cultural que impôs nas escolas públicas doutrinas que os pais não foram consultados para aprovar. Os americanos responderam nas urnas com uma clareza que não admite interpretações alternativas.

O que distingue o trumpismo do conservadorismo tradicional não é o abandono dos princípios, é a recusa em pedi-los desculpa. Durante décadas, a direita americana aprendeu a moderar o tom, a qualificar as afirmações, a antecipar a acusação de intolerância e a recuar antes de ser atacada. Trump eliminou essa dinâmica. Disse o que pensava, foi atacado, e os eleitores concluíram que preferiam um político que resistia à pressão cultural a um que a ela cedia. Esta lição não passou despercebida à direita europeia.

Portugal e a ascensão do voto de protesto real

Em Portugal, a narrativa estabelecida quis durante anos reduzir o crescimento do Chega a um fenómeno de protesto passageiro, o voto do ressentimento, diziam, sem projeto nem futuro. As eleições de 2024 enterraram essa interpretação. Com mais de 18% dos votos e 50 deputados, o partido de André Ventura deixou de ser uma anomalia e tornou-se uma realidade estrutural do sistema político português. O eleitor do Chega não é, ao contrário do que a imprensa lisboeta repetiu durante anos, um marginal com saudades do Estado Novo. É, em larga medida, um trabalhador da classe média que viu os seus impostos a subir, os hospitais a degradar-se, as escolas a abandonar a disciplina e o mérito, e a habitação a tornar-se inacessível, tudo enquanto os partidos do sistema debatiam quotas de género e linguagem inclusiva.

A resposta do sistema foi, previsível e reveladoramente, o cordão sanitário. PS, PSD e BE uniram-se na recusa de qualquer entendimento com o Chega, não com base em divergências programáticas concretas, mas com base na lógica de exclusão identitária que caracteriza o progressismo contemporâneo: não debato contigo, isolo-te. Esta estratégia funcionou no curto prazo. A médio prazo, está a produzir exatamente o efeito contrário: legitima o Chega aos olhos de quem se sente também excluído pelo sistema.

A falência do progressismo como projeto cultural

O problema fundamental da esquerda ocidental não é tático, é filosófico. O progressismo abandonou o seu tradicional foco nas condições materiais de vida (salários, habitação, saúde, segurança) e converteu-se numa ideologia de transformação cultural cujos principais beneficiários são uma classe académica e mediática sem ligação à vida quotidiana da maioria. Quando um partido de esquerda dedica mais energia a debater a linguagem dos pronomes do que a propor soluções para uma lista de espera cirúrgica de 18 meses, não surpreende que os seus tradicionais eleitores procurem alternativas.

A direita que está a vencer, nos Estados Unidos, em Portugal, em toda a Europa, não é a direita do grande capital nem a da nostalgia autoritária. É a direita que recuperou uma linguagem que a esquerda abandonou: a da família, da segurança, da soberania nacional e do mérito individual. São valores que não precisam de ser explicados a quem os vive. E é essa simplicidade, essa ligação direta entre princípio e experiência quotidiana, que a torna, hoje, politicamente imbatível.